Como lidar com quem fura a quarentena - CantuÁrea #06

25/04/2020 11 min

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Sinopse do Episódio

Hoje o nosso papo é sobre modos de lidar com quem não respeita o distanciamento social. Esta é uma questão que tem afetado muitas pessoas, principalmente em relação a familiares, amigos e vizinhos que, mesmo cientes do risco, não têm obedecido às orientações dos órgãos públicos, dos profissionais da saúde ou mesmo da própria Organização Mundial da Saúde – OMS. Será que este é o seu caso também?

É importante salientar que qualquer estudo sobre as relações humanas possuem infinitas variáveis e incógnitas, de modo que não é possível chegar a um resultado quantitativo e exato como dois mais dois são quatro. Por outro lado, sob uma análise sensível e qualitativa, podemos averiguar o modo e os motivos que levam as pessoas a desrespeitarem o isolamento social. Assim, podemos exercitar um olhar mais cuidadoso conforme a nossa realidade e construir caminhos possíveis para a superação dos desafios.

Com esse objetivo, listei três perspectivas que levam as pessoas a não respeitarem o distanciamento social.

1. NEGAÇÃO

A primeira perspectiva é a negação enquanto recurso do inconsciente no (não) lidar com a perda e seus problemas consequentes. Pode ser a perda de um ente querido, mas também de um emprego, de um relacionamento ou da autonomia, da liberdade, conforme examino neste exemplo. No famoso texto “Luto e Melancolia”, Freud procura constatar semelhanças e diferenças entre estes dois conceitos tão presentes na contemporaneidade. O texto é curtinho, de fácil leitura e fácil de encontrar na Internet. Todavia, deixarei ao fim do texto o link para quem quiser adquirir o livro.

Posteriormente, a psiquiatra suíça Elizabeth Kubler-Ross desenvolveu um estudo baseado em sua experiência clínica no qual consegue mapear os 5 estágios do luto: negação (e isolamento), raiva, barganha, depressão e aceitação. O estudo se encontra no livro “Sobre a morte e o morrer”, cujo link para obtenção também será disponibilizado ao fim da leitura.

Na reflexão sobre a quarentena, atenho-me ao comportamento de negação. Neste estágio, a pessoa acaba negando o problema e fazendo de tudo para não lidar com a situação de perda. É também neste sentido que surge a lógica do isolamento, pois o indivíduo não quer falar sobre o assunto e se afasta das outras pessoas para não lidar com a realidade.

Seguindo os estágios, depois da negação vem a raiva. Esta etapa se consolida quando a pessoa se sente injustiçada, revoltada com a vida e indignada por ter que passar por sua respectiva perda. Após a raiva vem a barganha, momento em que se inicia certa negociação com a realidade. É quando a pessoa apela à intervenção divina e torce pela aparição de caminhos para conseguir superar a perda. Posterior à barganha, vem a depressão, a tristeza. E, por fim, quando o indivíduo está preparado pra lidar com a realidade da perda sem desespero, é a aceitação.

É importante salientar que nem sempre o estágio se dá nesta ordem ou de modo retilíneo, pois a pessoa pode lidar mais facilmente ou pular algum dos estágios, assim como também pode retornar a algum estágio do qual já havia superado. Tudo isso compõe o processo de superação da perda e do luto.

2. FATORES SOCIAIS

2.1 PERIFERIA

A segunda perspectiva são as características sociais. Se você, assim como eu, mora na periferia, há outras particularidades que influenciam diretamente no (não) respeito ao distanciamento social. Além de muitas famílias grandes viverem sob um mesmo teto, outras tantas moram num mesmo terreno e vivem num formato de comunidade: pais, filhos, irmãos, primos, sobrinhos e agregados, todos habitando e dividindo um mesmo quintal. Deste modo, a divisão entre as casas é difusa e de difícil definição, o que torna complexo o estabelecimento de qualquer arranjo de isolamento social.

Além disso, ainda há o que eu costumo chamar de “cultura de portão”. Aqui na Baixada Fluminense, assim como em outras periferias e no interior, o hábito de ficar no portão de casa opera como uma tradição familiar e comunitária. Além de servir pra fugir do calor das casas cheias e apertadas, as pessoas veem a rua, cumprimentam os vizinhos, comentam sobre a vida, enfim, contemplam o tempo passar. Combinado à realidade das pessoas idosas, o hábito agrava a tendência à negação.

2.2. IDOSOS E CHOQUE GERACIONAL

Você provavelmente já assistiu algum vídeo no qual um idoso tenta escapar da família, pular o muro de casa e fugir da atual quarentena. Estes vídeos têm feito muito sucesso por aí e são engraçados pelo tom inusitado, mas muito perigosos quando a gente pensa nas consequências destas ações impensadas.

Imagine como deve ser difícil passar de uma situação de plena autonomia e liberdade, após superar os desafios, construir uma vida, criar os filhos e os netos; para uma situação de controle e dependência. Mesmo sob uma transição paulatina, no decorrer do processo de envelhecer, este é um dos principais desafios nesta fase da vida. Para o idoso, ter que admitir tudo isso de forma repentina é ainda pior.

Como se não fosse o bastante, muitas pessoas idosas já estavam em uma situação de solidão mesmo antes da pandemia de coronavírus. Muitos não possuem amigos, tampouco ambientes para socialização, como nas escolas e nas relações de trabalho. Elas dependem da relação com familiares, filhos, netos e vizinhos como meio de socialização.

Quem nasceu há mais de 60 anos cresceu numa época em que não havia tanta mediação da realidade por meios artificiais. Toda sua experiência de vida se deu através do contato físico com o mundo e com as outras pessoas, no toque, na conversa, no andar. Todo o seu estímulo se dá por meios físicos e reais, não virtuais. Pra esta pessoa, ficar em casa sem contato humano é tão ruim quanto seria pra um jovem ficar sem internet e sem celular em meio a uma pandemia mundial.

Ademais, atualmente o idoso já não possui uma imagem frágil, de alguém que demanda cuidados. Esta imagem caricata ficou no passado. A imagem que ele constrói de si – a autoimagem – se destaca pela saúde, pelo vigor, pelo “histórico de atleta”. Por isso, ele se sente bem, como se tivesse saúde de ferro, e não tem medo de adoecer.

Também é possível que haja pequenos declínios cognitivos que não interfiram na autonomia do indivíduo e acabem presentificados nos gestos de teimosia, na dificuldade de aceitar a opinião alheia, na resistência às mudanças e afins.

Entretanto, independente do motivo que leve uma pessoa idosa a não respeitar o distanciamento social, é fundamental que ela não seja infantilizada ou tratada como criança. Ainda que a teimosia e a resistência por vezes lhe remeta a uma certa inconsequência infantil, é importante ter em mente que aquela pessoa é um indivíduo adulto, que superou muita coisa na vida para chegar até ali. Além de tudo, merece respeito. Chamá-la de criança apenas agrava o sentimento de desvalorização que nossa sociedade impõe às pessoas idosas, principalmente depois da aposentadoria. Isso só dificultará o diálogo.

Dialogar sempre é a melhor opção. Em reportagem recente publicada n’O Estado de São Paulo, a neuropsicóloga Gisele Calia afirma que um caminho possível para estabelecer o diálogo e possivelmente convencer o idoso é resgatar suas experiências de superação e cuidado com ela mesma e com os filhos e, desta maneira, mostrar como é necessário e possível passar por este novo desafio. Esta incrível reportagem escrita por Camila Tuchlinski me serviu de fonte para parte deste texto e seu link também estará disponível ao fim da leitura.

3. NEGACIONISMO CIENTÍFICO

A terceira e última perspectiva é o negacionismo científico, isto é, quando a pessoa não acredita na ciência, em especialistas e nas pesquisas científicas. Este movimento é atrelado a uma série de teorias da conspiração e ressurge atualmente na ascensão de grupos de extrema direita no mundo.

Além da negação da existência do novo coronavírus, ou de que tudo não passa de uma estratégia comunista chinesa pra dominar o mundo, também são exemplos de negacionismo: o movimento antivacina; o terraplanismo; o revisionismo histórico que nega a ocorrência da escravidão, nega que tenha ocorrido ditadura no Brasil, nega a existência do racismo, nega o holocausto; dentre outros. Note que quase todas as práticas negacionistas dialogam com o preconceito, a xenofobia, o racismo, o ódio de classe, a intolerância religiosa, a intolerância de pensamento etc.

Para contrapor tal perspectiva estagnante e ampliar os horizontes, há um livro ótimo da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie chamado “O perigo de uma história única”. Nele, a autora aborda a importância de termos acesso a inúmeras perspectivas, pesquisas e acúmulos sobre um mesmo assunto com o objetivo de enriquecer nosso conhecimento e nosso olhar sobre o mundo. O livro é de fácil acesso pela internet, mas disponibilizarei o link ao final do texto para quem quiser adquiri-lo também.

Espero que a reflexão e as informações aqui oferecidas ajudem você a enxergar algum caminho possível. Vai passar! #FicaEmCasa

Rennan Cantuária é sociólogo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, pós-graduando em Estudos Linguísticos e Literários pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro e professor.

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LINKS INDICADOS:

Luto e Melancolia, de Sigmund Freud – https://amzn.to/2KngTSP

Sobre a morte e o morrer, de Elizabeth Kubler-Ross – https://amzn.to/2VqkiXf

É possível convencer idosos a fazer quarentena? Saiba como, de Camila Tuchlinski – https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,exposicao-de-fotos-evidencia-sensacao-de-isolamento-dos-idosos-me-disseram-que-so-velhos-morrem,70003278305

O perigo de uma história única, de Chimamanda Ngozi Adichie – https://amzn.to/3asrAOv

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