Ouvir "F em versos - Clamor da terra inundada "
Sinopse do Episódio
Com o apoio de: NuPILL- CA - SECARTE – UNISUL
Maura de Senna Pereira foi professora, jornalista e poeta brasileira, nasceu no ano de 1904, em Florianópolis. Maura escrevia sobre a mulher, sobre seus direitos, sobre o feminismo daquele tempo. Certamente foi uma mulher à frente do seu tempo. Ela faleceu no Rio de Janeiro em 1991, cidade em que escolheu morar.
Ouça o poema "Clamor da terra inundada", do livro Poemas-estórias, de Maura de Senna Pereira, lançado pela editora Achiamé, em 1980. Disponível em: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?id=159654
Ficha técnica:
Seleção e leitura - Isabela Melim Borges
Edição - Cristiano Mocellin
Clamor da terra inundada
Eu sou a mulher plantada
na terra que era um celeiro
que a si mesma se bastava
e ainda seus belos frutos
lá por fora derramava
Hoje sou planta sofrida
que a terra está inundada
Parecendo maldição bíblica
águas diluvianas caem na terra inocente
e grandes rios crescem
(são colinas? são montanhas?)
e transbordam
inundando também as glebas vizinhas
por outras chuvas atormentadas
Ai! tornou-se uma tragédia o cone sul do País!
Ai! quem pode dizer de tal tormento? quem o diz?
Eu sinto que meus pés são raízes
moles e fugidias e que as águas
já me ultrapassam a cintura
e que meus peitos magros submergem
E sei que há milhares de meninos sem leite e sem leito
e sei que há milhares de seres com fome sede
e frio. E sem morada
Em breve as águas chegarão à minha boca
e eu não poderei sequer chorar
chegarão aos meus cabelos
e eles se confundirão com os mortos e os destroços
Eu sou a terra inundada
Ah se houvesse um anjo que costurasse
lá em cima as nuvens prestes a cair
e para o norte depois as levasse
e lá desatasse os pontos
e sobre as terras secas o inverno chegasse!
E livres das chuvas
que foram matar a sede de outros seres
nossas terras voltassem ao que eram antes!
Eu sou a planta que apesar de tudo ainda sonha:
esse anjo não existe
Mas existem outros: vós, irmãos, conterrâneos e
de todo o País
dando de vossas sobras ou partindo ao meio o vosso pão
e até presos se privando de uma refeição
para ajudar — num gesto raro
de fraternidade humana
estais tentando salvar os flagelados:
pássaros trazem a cada hora vossas dádivas
socorros estão vindo de todos os lados
As águas não chegaram ainda aos lábios meus
e eu ainda posso agradecer
vosso amor que não cessa de chegar
e ainda posso clamar contra as chuvas
que não cessam de descer
Mandai pois alimentos ainda, água
para beber, velas para alumiar,
remédios para proteger, roupas
para cobrir e agasalhar
pois inaudito é o vosso movimento w
que parece ouvir uma só voz:
a do vosso amor por nós
Rio de Janeiro, 12 de julho de 1983
Maura de Senna Pereira foi professora, jornalista e poeta brasileira, nasceu no ano de 1904, em Florianópolis. Maura escrevia sobre a mulher, sobre seus direitos, sobre o feminismo daquele tempo. Certamente foi uma mulher à frente do seu tempo. Ela faleceu no Rio de Janeiro em 1991, cidade em que escolheu morar.
Ouça o poema "Clamor da terra inundada", do livro Poemas-estórias, de Maura de Senna Pereira, lançado pela editora Achiamé, em 1980. Disponível em: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?id=159654
Ficha técnica:
Seleção e leitura - Isabela Melim Borges
Edição - Cristiano Mocellin
Clamor da terra inundada
Eu sou a mulher plantada
na terra que era um celeiro
que a si mesma se bastava
e ainda seus belos frutos
lá por fora derramava
Hoje sou planta sofrida
que a terra está inundada
Parecendo maldição bíblica
águas diluvianas caem na terra inocente
e grandes rios crescem
(são colinas? são montanhas?)
e transbordam
inundando também as glebas vizinhas
por outras chuvas atormentadas
Ai! tornou-se uma tragédia o cone sul do País!
Ai! quem pode dizer de tal tormento? quem o diz?
Eu sinto que meus pés são raízes
moles e fugidias e que as águas
já me ultrapassam a cintura
e que meus peitos magros submergem
E sei que há milhares de meninos sem leite e sem leito
e sei que há milhares de seres com fome sede
e frio. E sem morada
Em breve as águas chegarão à minha boca
e eu não poderei sequer chorar
chegarão aos meus cabelos
e eles se confundirão com os mortos e os destroços
Eu sou a terra inundada
Ah se houvesse um anjo que costurasse
lá em cima as nuvens prestes a cair
e para o norte depois as levasse
e lá desatasse os pontos
e sobre as terras secas o inverno chegasse!
E livres das chuvas
que foram matar a sede de outros seres
nossas terras voltassem ao que eram antes!
Eu sou a planta que apesar de tudo ainda sonha:
esse anjo não existe
Mas existem outros: vós, irmãos, conterrâneos e
de todo o País
dando de vossas sobras ou partindo ao meio o vosso pão
e até presos se privando de uma refeição
para ajudar — num gesto raro
de fraternidade humana
estais tentando salvar os flagelados:
pássaros trazem a cada hora vossas dádivas
socorros estão vindo de todos os lados
As águas não chegaram ainda aos lábios meus
e eu ainda posso agradecer
vosso amor que não cessa de chegar
e ainda posso clamar contra as chuvas
que não cessam de descer
Mandai pois alimentos ainda, água
para beber, velas para alumiar,
remédios para proteger, roupas
para cobrir e agasalhar
pois inaudito é o vosso movimento w
que parece ouvir uma só voz:
a do vosso amor por nós
Rio de Janeiro, 12 de julho de 1983
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