Papo Lendário #200 – O Mito da Idade Média

29/10/2019 1h 47min
Papo Lendário #200 – O Mito da Idade Média

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Sinopse do Episódio

Nesse episódio do Papo Lendário, Leonardo, e as convidadas Beatriz Santos e Dra. Tupá Guerra conversam sobre o Mito da Idade Média.

Veja como o conceito popular que temos da Idade Média é bem diferente de como realmente foi esta época.

Ouça sobre como o sexo era visto e tratado na Idade Média.

Entenda que a Inquisição nessa época não funcinava como muita gente imagina.

E ouça sobre diversas outras caracteristicas dessa época.

- Esse episódio possui transcrição, veja mais abaixo.

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Comentado no episódio:
Going Medieval
Medieval Reacts
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-- Transcrição realizada por Amanda Barreiro (@manda_barreiro) --

[00:00:00]
[Vinheta de abertura]: Você está ouvindo Papo Lendário, podcast de mitologias do projeto Mitografias. Quer conhecer sobre mitos, lendas, folclore e muito mais? Acesse: mitografias.com.br.
Leonardo: Muito bem, ouvintes, no episódio de hoje não vamos voltar tanto no passado como de costume. Vamos ficar ali pela Idade Média, ou seja, vamos queimar bruxas, ficar rezando o dia todo, parar de tomar banho e morrer jovem.
Tupá: A gente também não vai escovar os dentes.
Leonardo: Nem vamos nos preocupar com isso, dente vai tudo cair.
Bia: E vamos beber muita cerveja no intervalo.
Leonardo: E, para isso, vocês já ouviram aí, estou com convidadas que já gravaram aqui com a gente e retornaram pelo tema. Primeiro aqui vou chamar a Bia, pode se apresentar aí, dar a carteirada de medievalista.
Bia: Mas já chega assim? E aí, pessoal, tudo bom? Faz tempo que eu não gravava aqui no Mitografias. Estou feliz de estar de volta, ainda mais por esse convite, para falar de Idade Média também, que foi um pouquinho tema da minha pesquisa no mestrado. Na verdade, a minha formação é em Letras, sou formada em Português e Inglês, mas o meu mestrado fiz em Literatura Comparada, e aí eu trabalhei com literatura medieval especificamente, então, como Literatura também não anda longe da História, estudei bastante essa parte do contexto histórico medieval e é um assunto que, se deixar, Leo, a gente fica aqui até amanhã e depois de amanhã, porque Idade Média... o que não falta é assunto bom.
Leonardo: Vamos lá, vamos conversar. É bom, porque rende bastante. E a outra convidada que temos hoje aqui é a Tupá. Então pode dizer oi para os ouvintes e também dar a sua carteirada.
Tupá: Olá, ouvintes, como estão vocês? Tudo bem? Pois é. Deixe-me ver: carteirada? A minha carteirada medieval é um pouco menor, já que a minha especialidade... eu sou historiadora, eu sou formada... fiz História, fiz mestrado, fiz doutorado, só que a minha pesquisa principal é em Antiguidade, não em Idade Média. Como eu trabalho com o fim da Antiguidade e começo da Idade Média - meu tema principal de pesquisa é entre 300 antes da Era Comum até mais ou menos 200 antes da Era Comum -, então é ali fim do período antigo, início da Idade Média. Tem algumas coisas que eu estudo também na Idade Média, e a Idade Média é muito perto do meu coraçãozinho. Eu gosto muito de Idade Média e eu gosto muito de aprender sobre os mitos da Idade Média, ou seja, tudo que a gente achou que sabia sobre Idade Média, só que, na real, a gente aprendeu no filme de Hollywood e no jogo de RPG, e não com a Idade Média de verdade.
Leonardo: É o que a gente vai falar hoje, falar dessas diversas características que muita gente acha que a Idade Média era desse jeito, era daquele jeito e tudo, e não, tem muita coisa aí que é falsa, simplesmente isso, tanto que o título do episódio é O Mito da Idade Média. E aí eu tenho que - para o ouvinte que já é de longa data - já fazer uma explicação, senão vai puxar a minha orelha, porque aqui no Mitografias a gente sempre bate na tecla de que é meio errado você ficar pondo mito como sinônimo de mentira pura e simplesmente, porque mito, nas mitologias, vai além disso, porém, pesquisando mesmo para essa pauta, eu fui refletindo e fui vendo que a Idade Média como um todo, esse imaginário que a gente tem errado, o qual a gente vai descontruir nesse episódio, vira um mito em si não necessariamente pela ideia de ser falso, apesar de ser, de não ter tais elementos que a gente vai citar, mas porque ele já é todo construído, ele já tem uma narrativa que vai explicar como as pessoas eram e tudo, o que faziam, o que não faziam. Independentemente de ser falso ou não, ele já tem toda uma estrutura. Da mesma forma como, por exemplo, a gente pega a Idade Média fantástica, a gente pega do Tolkien ou até Game of Thrones, pega...
Tupá: RPG.
Leonardo: ... RPG - RPG é o principal, é o mais legal de todos -, a gente considera normal que seja uma mitologia, fala: "A mitologia tolkieniana", a "A mitologia de tal RPG" e tudo, por quê? Porque tem um mundo construído ali, só que ali tem dragões, tem magia, tem um monte de coisas que, para aquele mundo, faz sentido, para aquele mundo tem uma lógica. Só que esse mundo com dragões e magia é tão irreal quanto essa Idade Média popular, digamos assim, que muita gente imagina que existiu. Então ambos têm o mesmo peso, de certa forma, no sentido de que tem toda uma narrativa, tem diversos elementos ali, mas está além de ser verdade ou mentira. Uma Terra Média com dragões teoricamente não existiu e uma Terra Média com os elementos os quais a gente vai citar - para não queimar a pauta aqui - também não existiu. Então ambos estão no mesmo peso. E aí eu vi: se um é um mito, é uma mitologia com dragões, com magia, é uma mitologia, normal de se ver dessa forma, essa outra Idade Média popular também é, porque ela está toda construída. Só que, porém, parece que eu estou defendendo a ideia: então tudo bem ter essa Idade Média assim, que é falsa e tudo, é mito ali, mas está ok, só que aí chega a uma parte já problemática, porque, quando a gente pega as com magia ou sobrenatural e tudo ali, a gente teoricamente tem noção de que aquilo lá é um conto, é uma narrativa de um livro, é de RPG, é coisa fictícia - ou, se não tem noção, deveria ter. Agora, essa outra já não, e eu acho que isso cai muito para a Idade Média, mas também com certeza cai para outros momentos históricos aí, momentos históricos recentes também.
Tupá: Quando a gente pensa em Idade Média como um mito também, eu acho que cabe a gente pensar como todas as idades do mundo... essa divisão em idades do mundo é uma divisão teórica. As pessoas tendem a esquecer que, na verdade, a Idade Média não existiu de fato, ela é só uma visão teórica que a gente tem hoje em dia quando a gente olha para o passado, mas, para as pessoas que estavam vivendo a Idade Média, elas não estavam na Antiguidade, vivendo a vida delas na Antiguidade, e, de repente, elas falaram: "Cara, eu acho que a gente precisa ir para um feudo e aí vai ser muito melhor a nossa vida, porque agora a gente está vivendo a Idade Média". Não é, as coisas aconteceram muito aos poucos e, hoje em dia, quando a gente estuda esse período, a gente olha para trás, a gente o classifica como Idade Média. Então, no fim das contas, Idade Média é uma construção teórica, ela não é uma coisa que existiu por si só. Sem contar que o que a gente considera como Idade Média Clássica, a ideia do feudo, vassalo, suserano etc. - vocês devem ter aprendido isso na escola -, eu lembro que um professor uma vez falou para mim: "É bom que o grande modelo da Idade Média se aplica a uma parte do que hoje é a França no século 12; ele não se aplica a todo mundo, ele não se aplica nem a toda a Europa, ele não se aplica nem durante todo o período", porque vamos pensar que a Idade Média é um período de mil anos, então muita coisa aconteceu em mil anos. A gente não tem coisas que, durante a Idade Média, acontecia isso. A gente fala assim quando a gente precisa estudar para uma prova, que precisa classificar, mas não existiu uma coisa que aconteceu durante toda a Idade Média da mesma forma, igual. Sei lá, talvez... as pessoas morriam, mas até aí não caracteriza Idade Média. Então acho que dá para pensar nesse mito de Idade Média também considerando a ideia de como é uma construção pensar em uma idade do mundo. E é uma construção muito eurocêntrica, porque o que a gente chama de Idade Média aconteceu na Europa; em outros lugares do mundo, o que estava acontecendo era outro momento, com outras características, e a gente continua chamando de Idade Média. Como classificar? Aí o pessoal fala: "O Brasil só começou em 1500 e não teve Idade Média. Então, filho, não é como se não tivesse gente aqui antes. As pessoas faziam coisas e tal, só que Idade Média não faz nenhum sentido para o Brasil de antes, porque as populações indígenas que aqui estavam viviam outros períodos, tinham outras evoluções históricas, outras formas de organização de sociedade que não se encaixavam no que a gente chama de Idade Média.
Bia: Sim, até hoje a gente continua fazendo isso em caixinhas mesmo. É como se... século cinco: "Gente, acabou o Império Romano, vamos fechar tudo, vamos fechar a porta de casa. Agora vamos para outro ciclo", e não é realmente nada assim, e aí a gente só pensa mesmo, como você falou, em Europa e tudo, mas e o que estava acontecendo no Oriente, no Japão, por exemplo, vivendo outro momento? Até Império Bizantino mesmo, um pouco depois. E a gente bota tudo na caixinha de referência da Europa como base para todo mundo e realmente fica difícil aplicar. O ideal seria que a gente tivesse oportunidade de ter um aprofundamento melhor nos outros momentos e até nos outros países, mas, infelizmente, só se a gente para para estudar uma região específica, porque na escola não tem nem tempo hábil para a gente ver isso.
Tupá: Ainda mais com duas aulas de História por semana.
Bia: 50 minutos de tempo de aula, 20 tentando fazer os alunos ficarem tranquilos para ouvir o conteúdo, não dá.